Domingo, 22 de julho de 2001                                      O GLOBO                                                                  RIO . 27
Pais recorrem a detetives para investigar os filhos
Aumenta o número de pessoas que contratam profissionais para saber se adolescentes são usuários de drogas

             "Conversas  ao  telefone em código, nervo-
sismo e queda
no  rendimento  escolar.Esses  foram   os sinais que o filho da comerciante X., de 39 anos,
deu à família de que algo não ia bem. A mãe descon-fiava, mas o estudante de 17 anos negava usar drogas. Para tirar a dúvida, ela contratou  um dos poucos detetives particulares do Rio que investigam  o  uso  de drogas por adolescentes. Profissionais desconhecidos até de muitos médicos especialistas  em dependência química, que consideram a medida ineficaz. Mas o desespero dos pais fala mais alto.
          -- Não sabia   mais   o  que fazer e meu filho dizia que  era tudo  imaginação   minha. Quando mostrei  as  imagens dele comprando a droga, ele  não  pôde  mais  negar - conta X., cujo filho está internado numa clínica há seis meses.


                   Agente usa até câmera
                       embutida em boné

           Segundo o detetive Rafael,  da  agência  Márcia  e  Rafael,  a procura por esse tipo de serviço pelos pais aumentou nos últimos três anos. O número de casos investigados pelo seu escritório passou de um para quatro por mês. O trabalho não leva mais de 15 dias e as técnicas vão de uma  escuta  telefônica  em  casa até seguir a pessoa em bailes ou na escola, num trabalho feito por um agente com uma microcâmera no boné. Os alvos desses detetives têm em média 17 anos, são de classe média alta, compram drogas com amigos e são agressivos.
          -- Eles (os pais) só querem comprovar o fato, saber  quem vende e em que nível está acontecendo - explica o detetive Ricardo da MT Investigações.
          Com tudo atestado em sons e imagem, há dois tipos de reação: internar os filhos ou tentar afastá-los dos fornecedores. A segunda medida é considerada inútil pelo diretor de tratamento da Clínica Jorge Jaber, Marcelo Carvalho.
          -- O dependente  químico  encontra  a  droga  em  qualquer  lugar.  O  pai  não precisa de detetive, mas de informação - avalia Marcelo.
          Segundo  a  psicóloga  Roseana  Ribeiro,  assessora técnica do Conselho Estadual Antidrogas, os pais só buscam ajuda quando a dependência está em estágio avançado. Os detetives confirmam:
         -- Já investiguei um rapaz que chutava a mãe, de 68 anos, quando ela não lhe dava dinheiro para comprar drogas. - conta o detetive Rafael.
          Este caso é visto pela terapeuta familiar do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atendimento ao Uso de Drogas da Uerj, Miriam Schenker, como exemplo de falta de limite:
          -- A mãe também ajudou a construir o monstro pela falta de limites, problema de muitos pais hoje - diz Miriam."